Mousehunt (1997)


Não Acordem o Rato Adormecido, real. Gore Verbinski. EUA, 1997. 35mm, cor, 98 min.

Este filme é, antes de mais, um objecto essencial para confirmar a estratégia seguida pela DreamWorks, companhia fundada por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg, e David Geffen. Spielberg já produzia através da Amblin Entertainment. Katzenberg é o grande responsável pelo revigorar da produção e tradição Disney. Geffen é uma figura marcante da indústria discográfica e também produtor cinematográfico de Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles, 1994). A DreamWorks pretende intervir nas várias áreas do entretenimento moderno, do cinema à televisão, passando pela informática. É exactamente esse objectivo claro que confirma a coerência das três primeiras apostas da produtora num ecletismo calculado: primeiro, o cinema de acção através de O Pacificador (The Peacemaker, 1997) com George Clooney e Nicole Kidman; depois, o testemunho histórico com Amistad (1997); e agora, a comédia com Não Acordem o Rato Adormecido. A proposta deste último acaba por ser mais estimulante do que a de The Peacemaker. A comédia, numa perspectiva diacrónica, sempre foi um género que sofreu inúmeras recodificações e algumas reinvenções. Nomes fundamentais como Buster Keaton, Charles Chaplin, os irmãos Marx, Jacques Tati, Jerry Lewis, são a prova disso. Ao nível do registo, este filme prossegue uma tendência marcada por Sozinho em Casa (Home Alone, 1990), devendo muito ao burlesco clássico, no valor emprestado ao corpo do actor. Em Charles Chaplin, o corpo era um reflexo do humanismo e do desajuste social. Em Buster Keaton, o corpo era testado na sua convivência com a máquina. Num caso como noutro, tudo se joga a partir da fisicalidade da actuação. Mas o interesse deste projecto não é apenas esse, mas o modo como isso se cruza o modelo da fábula, tão importante na obra de Spielberg. Neste caso, dois irmãos de personalidades antagónicas, rumam à solidão depois do falecimento do pai. Mas a casa que os acolhe é habitada por um pequeno rato. Assim, o argumentista Adam Rifkin e o realizador Gore Verbinski conseguem integrar ainda a superação do impensável — efeito típico do cinema contemporâneo —, criando um paralelo tangencial entre o mundo habitado pela pequena criatura e o das outras personagens. A única diferença significativa é a escala, porque quando vemos o diminuto rato a aconchegar-se na sua cama deixamos de duvidar do seu antropomorfismo. Ratos e Homens poderão continuar a ser identificações passíveis de ser confundidas, mas a profundidade humana e social de Ratos e Homens de John Steinbeck foi substituída pela brancura familiar, mesmo que tensa. “Um mundo sem fios é o caos”, afirma o pai dos dois irmãos. E no final, os irmãos e o rato regressam, depois da ordem familiar ter sido restabelecida. O pequeno rato aparece, neste contexto, como a imagem de substituição do pai da família Smuntz. Esse valor decisivo da personagem é explicitado na maneira como avança com uma nova ideia para a fábrica ou quando provoca a destruição do edifício. Mais do que permitir um jogo de acidentes, ele é em simultâneo a presença fascinante da natureza e uma causa de união. Não Acordem o Rato Adormecido é um filme constantemente ameaçado pelo fantasma da ordem que se materializa no fim. A ordem é sempre vista à distância, enquanto a desordem devora todas as sequências — a sequência inicial é um exemplo, assim como a refeição do candidato a Mayor. Um mundo sem fios é o caos. Então Não Acordem o Rato Adormecido apresenta um mundo somente accionado por fios. Evita os maniqueísmos porque se trata de um jogo, não de uma luta. Mas a aplicação das premissas é mecânica. As personagens secundárias reduzem-se ao espectáculo singular. Os seus episódios, das modelos europeias ao caçador de ratos, passando pelo coleccionador de La Rue, são irrelevantes, já que a obra não tem uma estrutura cumulativa. Nathan Lane e Lee Evans entram no esquema sádico repetido em Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque (Home Alone 2: Lost in New York, 1992) e Sozinho em Casa 3 (Home Alone 3, 1997). O labor irrequieto da câmara força o dinamismo sem trabalhar sobre as diferenças de escala. Não Acordem o Rato Adormecido é sobretudo uma obra em que é notória a indecisão entre ser uma elaboração sobre tendências na comédia cinematográfica contemporânea ou uma mera reprodução destas. Exactamente por isso, o filme constrói uma permanente denúncia, como quando Lars Smuntz (Evans) diz para não abandonarem o edifício e fala da resistência da sua estrutura, denunciando que a edificação vai ruir. Os ratos, como os Homens, reclamam a sinceridade do desejo. Os Homens, como os ratos, necessitam do equilíbrio das ideias. Afinal, talvez fosse melhor um mundo sem fios. [04.07.2012, orig. 03.1998]