The Night of the Hunter (1955)


A Sombra do Caçador, real. Charles Laughton. EUA, 1955. 35mm, pb, 92 min.

James Agee escreveu-o, adaptando o romance de Davis Grubb. Stanley Cortez fotografou-o. Charles Laughton dirigiu-o. Outros talentos se juntaram para fazer de A Sombra do Caçador o filme assombroso que é. Uma canção de embalar e o céu nocturno com estrelas brilhantes dão o tom onírico a uma narrativa que decorre em plena Grande Depressão. A velha Rachel Cooper (Lillian Gish) fala para as crianças que acolheu e protege sobre o Sermão da Montanha. Além da instrução moral, é um aviso contra os falsos profetas como a figura que vai aparecer pouco depois no filme. São também crianças que descobrem uma mulher morta quando brincam às escondidas. É no mundo infantil que o “reverendo” Harry Powell (Robert Mitchum) irrompe e é esse mundo que ele vai atemorizar. Ele fala com deus, pergunta-lhe quem vai matar a seguir às seis viúvas que assassinou. É certo que a Bíblia contém muitos homicídios, em particular os livros do Antigo Testamento, mas a questão é como lê-los. Harry atribui a deus o ódio a todas as coisas de que ele não gosta, como mulheres que dançam alegremente. A faca de ponta e mola serve como um agressivo elemento fálico. Fazendo-se passar por um membro do clero, ele sanciona a sua aversão e os abomináveis actos que comete com o cunho divino. Apropria-se até de uma canção religiosa, “Leaning on the Everlasting Arms”, para marcar a sua presença assustadora que transforma a confiança em medo. Este burlão e assassino consegue enganar através do uso da palavra, mas não sem que tenha lapsos e mostre ao que vem verdadeiramente. Esta é a estória de duas crianças que perderam o pai, Ben Harper (Peter Graves), condenado à morte por ter assaltado um banco e matado duas pessoas. O crime dele teve uma motivação social e económica para que a sua família não sofresse ainda mais num período de profunda recessão. Willa Harper (Shelley Winters) foi escolhida como a próxima vítima do caçador de viúvas. Harry conheceu Ben na prisão e sabe que ele escondeu os 10 mil dólares que roubou. Para John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce), a sua orfandade é interrompida com o aparecimento de Harry, mas não exactamente colmatada. A ausência permanece. Harry surge como um pai substituto, uma versão monstruosa (porque sem humildade espiritual) do pecador Ben. “Que religião professa, pregador?”, pergunta-lhe o homem que aguarda a execução quando Harry brande a sua navalha como uma espada. Em quatro dedos da mão esquerda, o “reverendo” tem escritas as letras da palavra “ódio”. A mão direita é simétrica, mas com a palavra “amor”. Na luta entre as duas mãos, o ódio vence. O olhar expectante de John mostra como é um miúdo sensível à imaginação das estórias que ouve e à relação que que estabelece entre elas e a sua vida. Por isso, revive a prisão de Ben quando a polícia prende Harry, revelando finalmente onde estava o dinheiro e chamando-lhe pai. Acaba por perder a consciência e é carregado em braços por Rachel. Ao contrário de Harry, ela fala de Deus e não por deus, sem que os seus olhos se dirijam para cima como acontece com ele. Rachel olha em redor como uma guardiã. [31.08.2018, orig. 25.11.2015]