O Canto do Ossobó (2017)


O Canto do Ossobó, real. Silas Tiny. Portugal/São Tomé e Príncipe, 2017. DCP, cor e pb, 98 min.

Silas Tiny nasceu no arquipélago de São Tomé e Príncipe em 1982. Tinham passado somente sete anos desde a independência. Era uma criança de cinco anos quando emigrou com a família para Portugal. Enquanto jovem, os primeiros campos artísticos que experimentou foram a pintura e a escultura. Depois entrou para a Escola Superior de Teatro e Cinema em 2010. Ainda era estudante da Licenciatura em Cinema quando realizou a sua primeira longa-metragem documental, Bafatá Filme Clube (2012), com o apoio do ICA. O filme retrata a história da vila de Bafatá, na Guiné-Bissau, importante local no período colonial, posteriormente desertificado. O retrato centra-se numa sala de cinema desactivada, onde as actividades de um cineclube reuniam muita gente até à independência do país em 1975. O edifício abandonado é guardado por Canjajá Mané, o antigo projeccionista que repete os mesmos gestos há cinquenta anos mesmo sem espectadores. Silas regressou às ilhas de São Tomé e Príncipe em 2014 para mostrar este filme sobre a linha que une o presente ao passado, entre as ruínas e os fantasmas, no âmbito da 7.ª Bienal Internacional de São Tomé. Haviam passado quase três décadas desde que ele tinha deixado a sua terra natal. O reencontro com as suas raízes propiciou o projecto seguinte, O Canto do Ossobó. O seu próximo filme encontra-se em pós-produção e foi rodado em São Tomé com o título Constelações do Equador. Trata-se de uma obra sobre a ponte área criada entre São Tomé e a Nigéria para transportar comida e medicamentos e salvar crianças da violência no contexto da guerra civil nigeriana, depois da secessão do Biafra. Neste momento, tem dois projectos em desenvolvimento: uma longa-metragem de ficção e um documentário, Casa Decana, que formará um díptico com O Canto do Ossobó sobre a temática da escravatura no período colonial. Ao contrário de Bafatá Filme Clube, que apenas foi exibido na televisão em Portugal (RTP e TVCine), O Canto do Ossobó estreou comercialmente no Cinema Ideal em Abril de 2018. Foi mostrado em diversos festivais, incluindo no DocLisboa 2017, onde integrou a competição nacional, e no Caminhos do Cinema Português 2018. É um filme mais pessoal e maduro que desenvolve o estilo plácido do documentário anterior, procurando captar pacientemente o ritmo das pessoas e das coisas que filma. É, em simultâneo, um reencontro com São Tomé e um encontro com a sua história. Ou talvez seja o contrário: um encontro com esse lugar e um reencontro com a sua história. Porque a lembrança que o cineasta tem da ilha que deixou quando ainda era menino talvez não permita o reencontro, já que nem as fotografias de família sobreviveram à viagem. Porque a memória que ele quer construir sobre a história desse lugar começou precisamente em Portugal, onde Silas viveu quase toda a sua vida. São estas as razões para que a voz narradora dele seja tão importante, começando por evocar a sua história pessoal para a pouco e pouco trazer à memória a história colectiva do povo são-tomense. “Eu esqueci o meu passado como quem esquece um trauma difícil, uma recordação dolorosa”, ouvimo-lo dizer enquanto deambula por escombros de edifícios escondidos pela vegetação, apagados pela névoa da passagem do tempo, e usados por animais como abrigo. Por isso, podemos dizer que os caminhos que o filme percorre visam a descoberta e preservação de reminiscências, daquilo que lembra o passado, aquilo que o pode conservar na memória, mas sempre de forma incompleta e indefinida. Rio do Ouro e Água Izé foram duas das maiores roças de produção de cacau (mas também de café e quina) do império colonial português. Como o próprio realizador explicou na altura da estreia, “A sua produção chegou a ser a maior a nível mundial nos princípios do século XX”. As vidas de milhares de homens e mulheres em São Tomé foram marcadas pelo trabalho forçado num regime equiparado à escravatura. O Canto do Ossobó indaga os vestígios desse passado de domínio, injustiça e dor. É como se tudo tivesse ficado, de alguma forma, em suspenso e se ouvisse, sob os sons do quotidiano actual, o silêncio de quem foi escravizado e morto. Os espaços permaneceram basicamente iguais e são eles que a câmara regista, através de enquadramentos fixos ou móveis, para que dar a ver a persistente presença do passado no presente. Do passado, restam poucas imagens. A textura visual de O Canto do Ossobó combina imagens em vídeo de baixa e alta definição que sinalizam momentos de intimidade e de distanciamento, álbuns fotográficos que coleccionam registos fugazes de encontros, e fotografias e filmes de arquivo a preto e branco. Estas últimas imagens aparecem na segunda parte do filme depois do narrador fornecer alguns dados históricos sobre o volume de negócios e as condições (encobertas) de escravatura em que as mercadorias transaccionadas eram produzidas. Também a textura sonora do filme é densa, juntando um fundo de vozes imperceptíveis ao chilreio dos pássaros, por vezes com música congénere, a um conjunto de vozes perceptíveis que lêem cartas, contam estórias, falam sobre a repressão colonialista, entre as quais se destaca a do realizador-narrador. O filme não parte da lembrança pessoal para compor a memória colectiva, vai cruzando esses planos, trabalhando-os na imagem e no som. Por exemplo, na praia de Fernão Dias, Silas recorda o seu bisavô assassinado nesse local em Fevereiro de 1953 e as centenas de outros homens torturados, enterrados, e lançados ao mar acusados de conspirarem contra o estado. Em O Canto do Ossobó, as imagens e os sons têm uma força tão factual como evocativa. A dimensão evocativa é intensificada pela palavra, desde logo na expressão do título. O ossobó, ou cuco esmeraldino, é um pássaro cujo belo canto anuncia a chuva, mas que se esquiva ao olhar de quem quer contemplar a sua beleza. Conta a lenda que a sua distracção levou a que fosse encantada por uma cobra matreira, desaparecendo sem deixar rasto. Esta narrativa serve de mote ao filme: a serpente hipnotizadora e muda e o ossobó hipnotizado e silenciado correspondem à aparência que cobria as plantações e o regime colonial. Como Silas confessa no filme pela sua própria voz, ele não procurava apenas as suas recordações mas também as dos outros, os momentos da vida dele que estavam contidos na história de quem o precedeu. [11.09.2019]